Jogadora da Team Liquid fala sobre queda de investimento no cenário inclusivo, barreiras para mulheres em ligas mistas e o impacto da representatividade feminina no esports competitivo.

O cenário inclusivo de VALORANT vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que equipes femininas conquistam resultados históricos e ampliam sua presença em competições mistas, jogadoras ainda enfrentam redução de investimentos, menos organizações atuando na modalidade e dificuldades reais para alcançar o Tier 1 do competitivo tradicional.

Em entrevista, a pro-player Isaa, da Team Liquid, refletiu sobre o momento atual do cenário feminino de VALORANT, a importância do Game Changers, a estrutura oferecida pelas organizações e o futuro das mulheres nos esports.

Para ela, apesar da evolução técnica das equipes, o cenário inclusivo atravessa uma fase de retração econômica.

“Eu acho que já houve mais investimento. Houve uma época em que a LAN tinha oito times e todos tinham organização. Hoje, apesar de terem entrado organizações grandes, outras foram saindo. Isso é meio triste”, afirmou.

Segundo Isaa, a diminuição da visibilidade e da presença de organizações impacta diretamente o desenvolvimento competitivo. Na visão da jogadora, o movimento contradiz a evolução apresentada pelas atletas dentro do servidor.

“Os times estão evoluindo cada vez mais e eu acho que era para ter mais visualizações, mais investimento e mais campeonatos, e não o contrário.”

A jogadora também comentou sobre o cenário inclusivo em outros jogos competitivos. Embora acompanhe menos outras modalidades, ela citou o Counter-Strike como exemplo de um ecossistema que também perdeu investimento nos últimos anos.

“O Game Changers abriu portas.”

Ao falar sobre a possibilidade de mulheres alcançarem o Tier 1 do VALORANT misto, Isaa reconheceu que o caminho ainda é extremamente difícil, mas destacou o papel fundamental do circuito Game Changers como porta de entrada para novas oportunidades.

Ela citou o caso da jogadora Florescent, que ganhou notoriedade internacional após dominar o cenário inclusivo e posteriormente receber espaço em equipes do circuito principal.

“Eu acho que o Game Changers abriu portas para isso. Mas eu ainda não vejo a galera cogitando jogadoras do GC. Acho que as jogadoras ainda precisam se provar no cenário misto.”

Na visão da atleta, o próximo passo para consolidar essa mudança passa pela participação consistente de equipes femininas em ligas abertas e torneios mistos, como o Challengers.

Ela relembrou que, apesar do discurso histórico de inclusão, o cenário competitivo brasileiro de VALORANT ainda não havia contado, até recentemente, com uma equipe feminina disputando o Challengers nacional.

“No final, a gente fala que é misto, mas não é. O Challengers sempre foi chamado de misto, mas é a primeira vez que um time feminino vai jogar.”

Isaa, Jogadora da Team
Isaa, Jogadora da Team Liquid VISA na Final do GC

 

Representatividade como combustível

Questionada sobre o impacto da representatividade feminina para novas jogadoras, Isaa afirmou que só recentemente percebeu o tamanho da influência que atletas profissionais exercem sobre quem está começando.

Ela relembrou nomes que serviram de inspiração em sua trajetória, como Shaa e Issa Galli, destacando a importância de enxergar mulheres ocupando espaços historicamente dominados por homens.

“Você vê outras mulheres jogando bem e disputando campeonatos, e isso faz você ter vontade também.”

Para Isaa, essa responsabilidade não gera pressão negativa. Pelo contrário: funciona como motivação extra para buscar espaço em competições cada vez maiores.

“Pensar que eu posso ser uma das primeiras mulheres a fazer isso e motivar outras mulheres também é uma motivação muito grande.”

Estrutura profissional e cuidado fora do servidor.

Durante a entrevista, Isaa também detalhou a estrutura oferecida pela Team Liquid às atletas da organização.

Segundo ela, o suporte multidisciplinar foi essencial para que a equipe alcançasse títulos internacionais e mantivesse regularidade competitiva.

“O investimento que a gente recebe é excepcional.”

A estrutura inclui psicólogo, manager, educador físico e fisioterapeuta, além de acompanhamento contínuo para performance e saúde mental.

“A gente não só tem essas pessoas, como todas são excepcionais no que fazem.”

Apesar de elogiar o modelo da Liquid, Isaa acredita que nem todas as organizações estão preparadas para lidar de forma séria com diversidade e inclusão.

Ela afirmou que muitas equipes ainda enxergam elencos femininos apenas como estratégia de imagem.

“Tem organização que entra com time inclusivo só para falar que tem e deixa de lado. Isso é muito triste.”

Ainda assim, a jogadora acredita que o cenário está em fase de aprendizado e amadurecimento.

O futuro das mulheres no esports

Ao projetar os próximos cinco anos do cenário inclusivo, Isaa demonstrou esperança em uma presença maior de mulheres nas principais ligas competitivas do mundo.

Ela destacou exemplos recentes de equipes femininas conquistando espaço em campeonatos mistos em diferentes regiões, incluindo América Latina e América do Norte.

Além do VALORANT, também citou iniciativas recentes no Counter-Strike, como participações da Imperial Female em competições abertas.

“Espero ver mais times disputando ligas mistas, mais oportunidades e mais investimento.”

Para a atleta, o crescimento definitivo do cenário feminino depende diretamente de continuidade estrutural e apoio financeiro.

“No final, as coisas só vão melhorar com investimento.”

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