Os projetos de investimento em esportes e entretenimento feitos pelo governo da Arábia Saudita têm lentamente dominado cada mercado, e mostram uma tendência nítida de público-alvo, os mais jovens, que simboliza uma escolha estratégica em renovação cultural.

O reinado saudita, sendo uma monarquia teocrática baseada nas leis muçulmanas, teve extrema dificuldade em se adaptar às perspectivas sobre o povo saudita que foram formadas no Ocidente após o 11 de setembro. A associação da fé muçulmana com o terrorismo foi um problema que assolou todo o Oriente Médio e que implicava mudança em algo considerado sagrado.

Segundo dados do 9/11 Memorial & Museum, 15 dos 19 terroristas que operaram o ataque do 11 de setembro eram sauditas. Essa associação do país com o ato extremista teve um impacto simbólico que afetou a imagem do povo saudita e trouxe afastamento político do Ocidente.

E, desde então, esses foram obstáculos para a realeza saudita construir um processo de renovação cultural e política no país. Isso melhorou as relações com as potências globais por meio de uma aparente ocidentalização e distanciamento do extremismo, estratégias que precisariam de tempo e adaptação para serem aplicadas.

E sob a necessidade de uma nova liderança que soubesse conduzir o país com base nesta adaptação, surge Mohammed bin Salman. Ascendendo lentamente pelos cargos do governo saudita, antes disso, já mostrando destreza pelas movimentações políticas e econômicas, em 2017 é nomeado como príncipe herdeiro, o que foi visto com choque, já que Bin Salman é o sexto filho do rei e a monarquia saudita não segue uma linhagem monárquica tradicional; o seguinte a assumir é o irmão do rei, depois seus filhos.

Porém, os movimentos posteriores de sua chegada ao principado acabaram demonstrando seu merecimento. Em 2015, Bin Salman, que era presidente do Conselho de Diretores da PIF (Public Investment Fund), anunciou em rede nacional o Vision 2030, projeto que visava diversificar a economia saudita para além do petróleo e trazer investimento em cultura e tecnologia.

O PIF é o fundo soberano estatal do país, que soma US$2 trilhões, e tem a função de acumular as riquezas estatais e investir em nome do governo saudita, com grande parte do fundo sendo ativos da riqueza mais abundante do país, que, claro, é o petróleo.

Esse projeto de diversificação de investimentos toma em perspectiva que hoje o setor petrolífero corresponde a 40% do PIB, algo que se torna preocupante quando consideramos a instabilidade atual dos preços do barril de petróleo, transformando a economia saudita em um cenário incerto sem diversificação de mercado. 

Segundo estudo do McKinsey Institute, mais da metade do país em 2015 era mais jovem que 25 anos, indicando na pesquisa também a possibilidade de um “boom” populacional de 6 milhões de pessoas até 2030, mostrando que o futuro do reinado era esse.

E, em 2017, em Riyadh, Bin Salman já comunicava em público seu favoritismo por um retorno a um “islã moderado”. Ele ainda afirmava: “Nós não passaremos 30 anos das nossas vidas lidando com ideologias extremistas; nós iremos destruí-las agora, e imediatamente.”

Os apelos do príncipe em público por um “Islã moderado” também refletem a crescente, mesmo que lenta, flexibilização dos direitos das mulheres na Arábia Saudita, algo que estrategicamente tem gerado reações positivas, mesmo que estejam distantes de fechar a desigualdade de gênero no país.

Foto: Divulgação/EsportsWorldCup

E, considerando esses pontos, os investimentos iniciais e mais massivos do PIF foram no futebol, que se refletiram no Campeonato Saudita de Futebol, com a primeira liga Saudita Feminina Nacional sendo fundada em 2020.

E hoje, o polo mais investido pelo fundo árabe são os Esports, que passam grandes questionamentos éticos pelo público, como o alcance abrangente que a organização já tem tomado no cenário.

Em 25 de janeiro de 2022, a PIF anunciou a criação do Savvy Gaming Group, organização que buscaria se estabelecer como um dos gigantes do mercado de games e organização de eventos de esports. O inesperado seria o restante do anúncio e as consequências impactantes.

Mais abaixo da matéria, é revelado que, em conjunto com a fundação da Savvy, a PIF havia adquirido duas organizações: a ESL, organização alemã que, desde os anos 2000, é pioneira no mercado, sendo a mais importante organizadora de eventos de CS2 e já se expandindo para diversos outros jogos; e a FACEIT, a plataforma de e-sports focada em CS2 e League of Legends que proporciona organizar partidas entre jogadores em servidores de alta qualidade.

Essa junção entre ESL e FACEIT indicava que a Savvy, a partir de 2022, teria estrutura para dominar o mundo dos esportes eletrônicos competitivos, tendo capacidade de estruturar eventos diretamente de seu país.

Em entrevista para a Fox News em 2023, Bin Salman já comentava que “os esports são uma das maiores coisas acontecendo globalmente, é a indústria que mais cresce no planeta, crescendo 50% por ano, o retorno nos investimentos da PIF desde então são de 15% a 20% por ano em lucros, é algo incrível e não perderemos isso.”

E o próximo passo foi A Esports World Cup, um empreendimento ambicioso, que pretendia transformar a Arábia Saudita em uma catedral anual dos e-sports, e que até o momento tem dado frutos, mas vale questionar o quanto este processo foi articulado e manufaturado pelo príncipe.

Grande parte dos times que competem na Esports World Cup também recebe apoio financeiro da PIF, entre eles, grandes do cenário como a FURIA, LOUD, Team Liquid, Team Falcons, NaVi, G2, FaZe e muitos outros.

O Cofundador da FURIA Andre Akkari em entrevista para a Globo Esporte foi questionado sobre as controvérsias do governo saudita e descreveu sua visita de forma positiva que, “se deparou com uma cena diferente do estereótipo”.

Esse contato direto entre o fundo árabe e os times participantes, segundo a narrativa oficial, se trata de investimentos para “promover uma infraestrutura sustentável para os clubes”, mas que trazem de volta suspeitas que já tinham sido difundidas posteriormente: Sportswashing.

Sportswashing é um conceito que define o uso de esportes por parte de uma figura pública ou de estado para melhorar sua imagem, e, considerando os panoramas históricos e atuais do país, não é tão difícil notar paralelos.

Mohammed bin Salman hoje cria narrativas favoráveis por meio de seus investimentos em e-sports, com US$ 38 bilhões iniciais investidos, US$1,5 bi adquirindo e fundindo a ESL e FACEIT, e no fim de 2025 fazendo uma oferta chocante de US$ 55 bilhões pela EA SPORTS. Sua estratégia não parece parar.

Os conflitos geopolíticos no Oriente Médio e a Guerra do Irã colocaram o reino do petrodólar cada vez mais em risco, e continuaram mostrando uma dobra de aposta do reino saudita. 

Hoje, o total investido pelo PIF em esportes já totaliza aproximadamente US$1 trilhão, mas, com o cancelamento de diversas competições dos esportes adquiridos pelo fundo saudita devido à guerra, o esporte digital ainda demonstra ser o alvo mais preferido.

O presidente da Esports World Cup, Ralf Reichert, atestou em entrevista recente para a Time que os E-sports são “o esporte do futuro, que possui a oportunidade de se comunicar com 3,4 bilhões de gamers ao redor do mundo”, exaltando a natureza inclusiva do projeto, que ainda não sobrevive ao julgamento da luz pública.

Segundo pesquisas recentes, 48% dos gamers globalmente são mulheres, e 17% de gamers se identificam como LGBTQ+, algo que torna a identificação desses grupos com a nação algo frágil, visto que o país é conhecido por restrição de direitos das mulheres e criminalização e pena de morte para pessoas LGBTQ+.

O que gerou até Steve Arhancet, CO-CEO da Team Liquid e abertamente homossexual, documentou ao público estranheza ao conhecer Mohammed bin Salman em seu palácio em Riyadh, onde Bin Salman teria o convidado para jogar League of Legends em uma interação que o deixou “hipnotizado”.

Esse episódio exemplifica uma entre as muitas ações do investimento em aparências que Bin Salman fez desde seus apelos ao Ocidente, que geraram diversos episódios nas edições da Esports World Cup, como afirmações de Arhancet ser gay sendo retiradas de documentário oficial da competição.

Após isso, jogadores da Team Liquid protestaram com patches de símbolos pride em suas camisetas e sinalizaram profundo desconforto e insegurança jogando em Riyadh, visto que relatos surgiram de que os times teriam sido orientados a não criticar o governo saudita.

Esses casos retratam um regime de aparências que, em si, não busca nos e-sports investir e reforçar o cenário profissional; buscam benefícios políticos e econômicos e criam narrativas favorecedoras ao público jovem, em um mercado que ainda cresce exponencialmente.

Os esports ainda são um fenômeno recente; mesmo com público grande, ainda não foram acatados pelas massas. Seus jogadores ainda passam por dificuldades de regulação profissional e estrutura, não são considerados atletas por órgãos estatais, e o tempo dirá os impactos negativos e positivos de Bin Salman nessa estrutura.

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